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Paulo Renato Pinto Porto
Quando de meus primeiros passos na profissão que abracei, o vetusto Jornal do Brasil era a referência. De certo modo, o JB inspirou em alguns de nós a vontade de ser jornalista. Os craques do texto que admirava na imprensa carioca iluminavam a redação no centro do Rio — Armando Nogueira, Araújo Neto e Carlos Castelo Branco entre eles — , mas nas aulas do curso de Comunicação os professores falavam do velho órgão com uma certa ponta de reverência.
Explicavam que ali foram introduzidas as grandes mudanças gráficas e editoriais que corresponderam a um divisor de águas na imprensa brasileira. E havia o contraponto. Enquanto O Globo era o jornal que crescia à sombra da ditadura, consumido por uma classe média burguesa, era o JB o jornal preferido dos órfãos da utopia, os formadores de opinião, professores, intelectuais, funcionários públicos, universitários, enfim, as camadas médias da população.
Lembro-me muito bem do diferencial da seção de cartas do JB e do Globo. No primeiro, havia espaço para cartas com pluralidade de idéias e enfoques. Ao contrário do jornal da família Marinho, onde, aparentemente, haveria uma espécie de censura.
Era um tempo em que havia no Rio uma enorme quantidade de jornais que formavam opinião. Tempos do Correio da Manhã, da Ultima Hora, A Notícia, O Jornal, O Dia, o Jornal dos Sports, o Diário de Notícias e da Tribuna da Imprensa, entre outros. Nos anos 70, a maior parte sucumbiu à asfixia da falta de verbas publicitárias devido às posições editoriais. Eram tempos em que a linha dos jornais refletia o posicionamento político de seus proprietários. Alguns deles foram presos ou perseguidos, figurando entre eles “dona” Niomar Moniz Sodré, do Correio, e o Hélio Fernandes, da Tribuna, que até hoje padece por uma dívida reclamada do governo na Justiça, o que resolveria os problemas que levaram ao seu fechamento.
Versões abalizadas dão conta de que os descaminhos do JB começaram com a construção do moderno prédio no começo da Avenida Brasil. Havia a aspiração da família que controla o jornal em fazer do espaço a sede de um grupo de comunicação, reunindo jornal, rádio e TV, mas os militares tinham preferência pelo monopólio da família Marinho. A partir dali, o jornal degringolou de tal modo até a sobrevida, daí à morte.
Menos mal, sobrou a chance de ler pela internet os textos do Mauro Santayana, com suas aulas de brasilidade, cidadania, democracia e nacionalismo. Sem esquecer de um articulista do calibre do jurista Dalmo Dallari, do arguto Tarick de Souza, da coluna do não menos brilhante Tostão …
O JB foi um bravo na luta pela democratização em nosso país, enquanto o Globo se beneficiou da ditadura e da opressão. Lembro-me bem da cobertura das eleições em 1982, no episódio da Proconsult, quando as Organizações Globo tinham interesse em eleger o candidato Moreira Franco, enquanto o JB defendia uma cobertura limpa, sendo fundamental para a vitória do candidato Leonel Brizola.
Pois então o JB acaba de ter decretada sua sentença de morte, como aqui morreu o velho Monitor Campista. E assim vamos ficando placidamente a assistir os tempos de agravamento da nossa miséria cultural, enquanto proliferam tablóides popularescos que misturam a receita mercadológica do sensacionalismo barato e do duplo sentido em manchetes apelativas em meio mulheres peladas em suas capas.
Jornalista
