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João Vicente Alvarenga
O pensamento judeu-cristão considera a história como um vetor, ou seja, existe um início, meio e um fim, ao contrário da concepção grega e da dos asiáticos que é cíclica. Deus criou o mundo, as coisas e o homem que estará submetido irrevogavelmente ao tempo –isso é o começo-, porque o fim se mostrará quando Deus decidir interromper esse fluxo de aventura cósmica, da aventura da vida terrestre. Isso é o que se costumou chamar de fim do mundo, fim da história ou fim dos tempos que é o momento da passagem, chegando-se bruscamente numa outra realidade que é intemporal e que se chama eternidade. A história se detém e Deus julga todos os homens e separa “o trigo do joio”.
Essa ideia de fim de mundo está associada, então, à ideia de juízo final, o julgamento dos mortos, com uma recompensa para os justos e a punição para os maus, ideia essa que não é originária do cristianismo, ela surgiu no judaísmo por volta do século II antes do cristianismo.
O judaísmo não expõe esse conceito formalmente, mas a ideia de sobrevivência, através de uma ressurreição final, está implícita na concepção de juízo final e presente no Antigo Testamento.
Deus mostra ao profeta Ezequiel como tornará a dar vida às ossadas secas e fará ressuscitar os mortos: assim diz o senhor Deus a esses ossos – porei tendões sobre vós, farei crescer carne sobre vós, sobre vós estenderei pele e porei em vós o espírito, e vivereis… Sabereis que eu sou o Senhor quando eu abrir a vossa sepultura, e vos farei sair dela, oh povo meu! Porei em vós o meu Espírito e vivereis. (Ezequiel 37, 1-14).
Até à chegada da ressurreição, a humanidade necessariamente caminhará para a plenitude, perfeição? Pensadores cristãos católicos consideram que dentro do cristianismo ocidental não existe nada escrito que comprove essa ideia de que a tendência da humanidade é ir-se melhorando. Não se pode afirmar, com base na literatura do cristianismo nascente, que se avança numa progressão, embora possamos encontrar em Doutores da Igreja grega, especialmente em Santo Irineu que pensava, considerando a salvação trazida por Cristo, que a humanidade caminharia daí por diante por um desabrochar, uma plenitude.
A teologia ocidental, portanto, descarta essa concepção, porque ela está sob a influência de Santo Agostinho que, como se sabe, não tinha uma visão otimista do homem, muito ao contrário, ele considerava que na história humana, o bem e o mal estão intimamente imbricados um no outro e que, até o fim dos tempos, o jogo não está concluído, não há nenhuma segurança, nenhuma certeza sobre o fim da humanidade em geral e de cada homem em particular.
Esse é também o pensamento de vários segmentos do cristianismo na atualidade, quer dizer “no fundo, os cristãos não esperam a realização de nenhum paraíso terrestre. Apóiam sua esperança no destino post mortem do indivíduo e num além da história”.
O segmento do cristianismo espírita já tem uma visão mais otimista sobre os destinos da humanidade. Segundo o Espiritismo, o homem está predestinado à evolução, sendo esta o único determinismo a que está sujeito o ser humano. O princípio que norteia essa concepção é o de que Deus criou todos os espíritos simples e ignorantes, isto é, sem saber. A cada um foi dada uma determinada missão com o fim de faze-lo exercitar sua inteligência e seu senso de moralidade, para alcançar progressivamente a perfeição, alçando o planeta Terra à condição de morada feliz, habitado por espíritos mais evoluídos, uma ideia que se aproximaria da ideia de um paraíso terrestre.
Para os espíritas, portanto, a noção de progresso está ligada à ideia de uma marcha gradual e relativamente regular da humanidade para melhoria de seu estatuto moral e material.
Professor Mestre em Filosofia
